sábado, 11 de setembro de 2010

Quando Eu Era Pequeninho

Quando eu era pequeninho, minha mãe me dava pão e café no prato. Que nada mais era do que um prato fundo contendo café, leite e açúcar, com pedaços de pão francês mergulhados. E, quando eu ficava doente, de cama, adorava comer bolachas "Maria" com leite morno. Para diminuir a febre, a terrível "Novalgina" em gotas, que me provocava ânsias de vômito. Naquela época os remédios eram escassos. O que existiam eram fortificantes, usados mais na base da prevenção. Como, por exemplo: o "Biotônico Fontoura", a "Emulsão Scott"(óleo de fígado de bacalhau) e o famigerado "Bálsamo Alemão", panacéia para todos os males, mas que era amargo como féu e me fazia arrotar o dia inteiro.
Como me esquecer das cabanas feitas de lençóis amarrados pelo quarto, onde brincávamos eu e meus irmãos, fingindo sermos adultos responsáveis. E minha brincadeira solitária com o "Forte Apache", cercado pelos índios malvados, que no final eram sempre massacrados pelos meus soldados imbatíveis. Ou, então, a bolinha de borracha que eu jogava no telhado e esperava voltar, para então fazer uma defesa espetacular numa goleira imaginária. Havia, também, o carrinho de lomba, feito de madeira, que descia o morro de grama cheio de obstáculos colocados para serem ultrapassados. E chegar no final, em alta velocidade, fazendo uma curva fechada e parando numa gostosa capotagem. Bons tempos aqueles, tempos de alegria ingênua e inocente.
Ainda hoje, quando ouço os sons das cigarras cantando, lembro daquelas tardes ensolaradas. Do cheiro da mata verde, do pessegueiro, das ameixeiras cujos galhos escalava na busca de frutos que eram saboreados ali mesmo, no alto. Livre! Com o sol bronzeando meu rosto e a brisa me trazendo todos os odores exalados ao redor. E depois, quando estivesse bem cansado, era só cair no embalo reconfortante da rede, à sombra das árvores de pêra e caquí.
Lembro, ainda, das noite quentes de verão, onde nos tornávamos caçadores de vaga-lumes, só para vermos de perto o seu brilho mágico dentro de nossas mãos fechadas em concha. Brincar de "esconde-esconde" sob a luz da lua cheia, alheios às sombras fantasmagóricas dos galhos das árvores projetadas no chão.
Tudo isso ficou para trás, envolvido numa névoa que foi se desfazendo com o tempo, até virar em lembranças guardadas em algum lugar da minha mente. Sou feliz por ser humano e ter o privilégio de poder me lembrar de tudo isso. De poder sorrir, de poder chorar com os acontecimentos marcantes do passado.
Feliz daquele que pode se lembrar, feliz daquele que tem lembranças, pois estas são eternas.

Poema do Dia:

Lembranças

O vento me traz lembranças
De há muito tempo perdidas
Na solidão do espaço; heranças,
Cristalizadas e na mente escondidas...

Sei que pouco vivi neste mundo
E que muito mais há por vir
Mas agora, vou sonhando profundo
Esperando o momento de partir...

Sonhos, fantasias, lembranças da infância,
Meu Deus, o que há em mim amargurado
Que tamanho penar causa implicância
Vem e fica, na alma incorporado?

Que venha o vendaval, então
Que varra desse corpo, o mal
Que me troque, a vida, pelo perdão
Que ma dê a morte como saída final.

Richard 2010

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